HOMENAGEM À JORGE CASTRO

por Maria de Lourdes Foster

Começo agradecendo o convite da Grace para prestar uma homenagem na reunião do Conselho Diretor, ao nosso querido colega Jorge Castro.

Hoje venho falar de um amigo que me faz falta. Sou repleta de lembranças, mas são insuficientes para amenizar a saudades. Não poder “fazer” mais lembranças é coisa seria e me faz triste.

Prestar uma homenagem ao Jorge é necessário e tomo como uma possibilidade de ser farol. Que possa, quem sabe, ajudar a iluminar caminhos.

Não sei que idade o Jorge habitava, no dia 6 de maio completou 87 anos, mas ele tinha muitas idades. As vezes jovem demais para tudo o que vivia e raramente mais velho do que sua idade impunha.

Sua integridade, constância, capacidade de acompanhar as mudanças, era um modelo de vida, mas o que mais me encantava era seu investimento em propor e lutar por mudanças.

O Jorge não sossegava. Ele sonhava, escrevia, pedia opinião, pedia honestidade. O Jorge era um gigante.

Era vivo e queria vida.

Era encantado por bebes! E por gente… e por mentes!!

Ele amou a vida de uma forma particular. Amou a vida, a família, o trabalho, os amigos. Amou ideias e lutou por isso, não desistiu.

Mas avisava: não quero que ninguém tire a minha gravata! Perguntava se eu entendia o que isso significava quando dito no fim da vida…

Ele sabia da vida, tinha como é próprio da idade bem vivida, um conhecimento, mas, para mim, ele era sábio.

Falava da guerra, da pandemia, de política, de futebol, da sua doença, do que acontecia no CEP, com lucidez.

Acompanhei o Jorge de perto e fui acompanhada por ele.

Peguei a trajetória dele no CEP quando ele já tinha vivido muito a Instituição. Ele tinha orgulho de sua trajetória. Sempre gostou de contar as ideias e os ideais que tinha pra o CEP.

Ele, no CEP, acompanhou e propôs mudanças.

Participou ativamente de todas as instâncias que esteve. Contava com detalhes fatos de quando era coordenador de seminário.

Se envaidecia de ter sugerido a terminologia que foi aprovada em estatuto:’’ o CEP oferece formação psicanalítica”. Para ele as palavras ‘’oferece’ e ‘formação’ eram importantes.

Ele representou o CEP quando da fundação da Flappsip e teve importante participação no nome. Foi moção dele incluir o P final de Psicanalise.

Foi diretor do Departamento da Clínica do CEP e gostava de contar que lutou para mudar o nome de ambulatório para Clinica.

Não desistia de falar sobre a necessidade da exigência de analise pessoal.

Gostava de contar sobre as funções que desempenhou no CEP, e uma das alegrias foi ter sido convidado pela Denise Souza para ser o presidente do Conselho Diretor. Dizia sempre sorrindo que por ele, teria sido presidente do Cep.

Tinha suas ideias e sempre respeitava a opinião contraria. Chegava ao absurdo de sendo colorado doente, torcer pelo grêmio quando não estavam na mesma partida.

O Jorge era complexo e simples. Ele era coração. Pelo menos o meu Jorge. E ele era pensamento.

Fazia uma junção de experiencias e disso falava do futuro.

Se tem uma pessoa que morreu vivo foi ele.

Uma integridade. Não queria que seu corpo e sua alma não ficassem juntos : lutou por isso e conseguiu.

O Jorge, apesar de ter tentado muito ensinar aos que estavam próximos a dizer adeus, eu não aprendi…talvez porque a gente não diz adeus   a quem segue nos acompanhando…

Como ele mesmo disse, o que fica é a saudade. Para ele, essa era uma das grandes dores da morte.

Ele pediu que eu lesse o discurso que ele fez quando foi paraninfo da nossa turma, e agora, leio porque ele diz muito sobre o Jorge.

 

O que houve afinal?

 

Houve respeito, respeito pelos lugares,

Respeito pelo o que vocês eram e pelo que eu não era,

Respeito pelos nossos medos,

Respeito pelo conhecido, pelo desconhecido,

Respeito pelo que vocês sabiam e pelo que eu não sabia.

Houve respeito e houve cuidado.

Houve cuidado com cada momento, cada espaço,

Respeito com cada passo,

Com a hora, como atraso.

Cuidado com a impressão, a inscrição, com o traço.

Cuidado com o sentido e o não sentido,

Cuidado com a pele, com o fundo, com o profundo.

Cuidado com a onda, com o embalo,

Cuidado com o cuidado.

Cuidado com o toque, com a troca.

Houve cuidado e houve troca

Houve troca de palavras, de silêncios,

Troca de dúvidas e de saberes.

Houve troca de tempos e de lugares,

Troca de vertentes e de vértices.

Houve troca de risos, de sorrisos…troca de tristezas.

Houve troca de olhares,

Houve trocas e descobertas.

Descobrimos caminhos, formas, mistérios,

Descobrimos gestos, descobrimos critérios.

Descobrimo-nos, nos descobrindo.

Descobrimos verdades e inverdades,

Descobrimos a sinceridade e a singeleza,

Descobrimos a falta e a presença.

Descobrimos a mina… O afeto

Descobrimos o afeto.

Houve afeto,

Houve dúvidas, desconfiança,

Houve crenças e esperança,

Houve animo, houve desanimo.

Houve satisfação e frustração,

Houve fusão e solidão.

Houve amor, houve paixão.

Houve amizade.

E desses momentos, hoje… Fica a saudade.